Um livro para o fim do Brasil

Jarid Arraes

 

Uma doença fatal assola o Brasil e o transforma em uma terra pós-apocalítica: sem governo, sem leis e sem esperança. Os sobreviventes tentam cruzar o país em busca de um porto seguro. (...) Primeiro, o uso de novos agrotóxicos sem os devidos testes. Depois, a reação inesperada com as larvas que eles deveriam dizimar. Não se sabe quem foi o primeiro infectado, apenas que o surto começou no Mato Grosso do Sul. São os chamados “corpos secos”: espectros humanos que não possuem mais atividade cerebral. Mas o corpo deles ainda funciona e anseia por sangue. Escrito em conjunto por quatro autores, Corpo secos não é só um thriller nem um romance-catástrofe. É uma narrativas sobre os limites da maldade humana, e as chances de redenção em meio aos caos.

Autores: Luisa Geisler, Marcelo Ferroni, Natalia Borges Polesso e Samir Machado de Machado.

Corpos secos foi o único livro que li até agora dentro do meu isolamento social. Soube que ele estava sendo escrito há alguns meses, numa noite em que encontrei minha editora Luara França e a Natalia Borges Polesso num bar. Fiquei tão feliz. Eu adoro ficção especulativa, eu disse.

Coitada.

Todo esse tempo depois, com o livro colado em minhas mãos, me senti idiota como nunca. O que eu lia parecia uma janela para a vida de hoje. Assistindo as pessoas, os fatos, a polícia, a pandemia. Por mais ficção, por mais que a pandemia criada para costurar o livro seja diferente da nossa pandemia, tive uma experiência de realidade, de presságio.

A pandemia do livro é uma pandemia diferente da nossa. Mas que coisa é essa de chamar uma pandemia com intimidade.

Os quatro autores do livro, porque eles escreveram juntos a mesma história, fizeram um trabalho impressionante. Profetas. Tão pouco tempo depois do dia em que a pandemia – do livro -começou e o Brasil já estava todo desmontado. As peças que seguram a estrutura de um país cheio de desigualdade e injustiça se tornaram pedras rolando para todos os lados. Acabou o Brasil.

Muita gente tem dito isso – na realidade.

Me senti menos sozinha por não ter culpa em enxergar tudo de forma crua e esperar o pior do que vem. Primeiro me senti idiota, é verdade, mas depois Corpos secos me abraçou, porque entre a realidade e ficção, fica difícil dizer que o que vem em guida não é pior. Pode ser ainda pior. Mas encontro certo conforto em saber que há pessoas encarando a realidade e emaranhando previsões ruins. São essas pessoas que acabam salvando alguma coisa.

Quando vocês lerem Corpos secos, vão entender.

Até mesmo a presença de Roberto Carlos, o cantor, foi um encontro com o que vivemos. Imagina, não sei se é óbvio que as músicas de Roberto Carlos dariam o tom do Apocalipse Brasileiro, mas dia desses eu vi que um show dele seria exibido na programação do isolamento – o real. Um show que, como tradição, é exibido apenas no fim do ano.

Minha tia paterna adora Roberto Carlos, lembro de um dia em que escutamos um CD dele num quartinho da casa de minha avó onde ficava o som e umas cadeiras de ferro. Ela me mostrava o encarte e eu tentava aprender as músicas. Hoje não tenho contato com ela além de figurinhas no Facebook e detesto Roberto Carlos. Me pareceu coerente que quatro autores tenham concordado que as músicas dele seriam a trilha sonora do fim dos tempos.

Profetas.

Em Corpos secos, as pessoas saem correndo sem destino e não param nem quando a polícia atira. Um pastor repete o mesmo versículo, eis que estou à porta e bato, uma mulher se preocupa com as unhas, o cabelo, o rosto com a idade que já viveu até ali, a falta de tratamentos estéticos. E eu revivo a tela do meu celular, as pessoas insistindo que o tempo em casa deve ser aproveitado para cuidar da pele, aprender uma habilidade nova, yoga, usar lata de ervilha como pesinho leve, a mulher peguntando onde faz tosa e dá banho no cachorro de sete quilos, porque ela não tem coragem de dar banho com as próprias mãos.

Eu vejo um desespero de olhos caídos, quase chegando lá, no ponto em que não dá mais pra retornar. E Corpos secos conversou comigo sobre isso tudo.

Evidenciou o que eu já sabia, o que muitos sabem: no fim do mundo, a injustiça social joga os mais vulneráveis para situações ainda mais horríveis. A exploração dos corpos, a pobreza, a velhice, a infância.

Apenas uma parte do livro me soou desencontrada da realidade. A parte em que um cara vegano aceita comer umas bolachas feitas com leite, porque tinha fome e porque, em suas palavras, “acho que dá pra suspender os princípios no apocalipse”. Já eu acho que é nesse momento que os verdadeiros princípios saem de suas tocas. Aqueles princípios que enraizamos e que podem ser desde deixar compras no elevador para que a senhora de setenta anos não tenha que se expor tanto, até causar uma confusão desgraçada na frente de um hospital cheio de contaminados, enquanto se grita que, numa pandemia, o Brasil tem que trabalhar. Sair de casa, fingir que máscaras de pano serão proteção infalível, e arrancar a pele dos trabalhadores para que os donos das empresas e fábricas possam lucrar. Princípios inabaláveis.

Na hora que o terrível chega, cada um mostra seu princípio. Vamos brincar de comparar?

Eu, que não saio de casa há um mês e meio, vi as ruas que conheço. O festival literário cancelado. Quem restou tentando sobrar. É assustador conhecer as ruas por onde os corpos secos passaram. Foi assustador ver tantas coisas que espelham o que estamos vivendo. Isso bate mais forte quando você vai avançando na história e pensando: o que mais eles conseguiram prever?

“Nada foi feito para o apocalipse”, alguém diz no livro. E eu constato que minha profissão não foi feita para me ajudar a restar. Seria vítima fácil. E, na realidade, também sou. Viraria uma dessas notícias de corpo morto em que as pessoas – com seus princípios – comentariam: ah, mas ela tinha outra doença, não foi vítima da pandemia, foi vítima de si mesma, ela que se matou, esse vírus nem existe, ele veio de outro país, aqui não dura, não existe. A verdade é que eu estou durando até bem sem o vírus. Sem nossa pandemia, eu não seria estatística de óbito tão cedo.

Em Corpos secos de repente a doença pode atingir. Foi por pouco que aquela personagem sobrou. Um filho e um irmão podem ser perdidos e nunca mais reencontrados. De novo, isso me parece familiar. Me faz pensar nas pessoas morrendo sozinhas, sem um parente que faça companhia no hospital. Me faz pensar no de repente.

O que mais os quatro autores conseguiram prever?

Acho que esse livro é uma experiência necessária, algo que precisamos ler enquanto estamos vivendo essa pandemia – não a do livro, a real.

Nem toda lição é um aviso, nem toda lição é uma oportunidade para melhorar nossos princípios. O livro é verdadeiro. E que coisa dizer isso de um livro com uma doença absurda inventada por oito mãos.

Mas, veja, a leitura de Corpos secos também é necessária porque precisamos mergulhar, ou correr, ou permitir que sejamos conduzidos, ou desligar, ou ligar. Buscar alguma satisfação.

Uma das melhores qualidades de Corpos secos, a que te faz uma pessoa satisfeita, é o fato de que todas as partes e personagens se colam muito bem uns aos outros. A leitura se derramou pelas páginas, li num só dia, em poucas horas, simplesmente porque não conseguia parar.

Estou tão grata porque o primeiro livro que li durante meu isolamento foi Corpos secos. Eu precisava submergir numa escrita que não me interrompesse. Eu enxerguei, com cores, todas as imagens construídas pela escrita.

 

***

Jarid Arraes nasceu em Juazeiro do Norte, na região do Cariri (CE), em 1991. Escritora, cordelista e poeta, é autora dos livros Um buraco com meu nomeAs lendas de Dandara e Heroínas negras brasileiras. Atualmente vive em São Paulo, onde criou o Clube da Escrita Para Mulheres. Tem mais de 70 títulos publicados em Literatura de Cordel. Redemoinho em dia quente (Alfaguara) ganhou o prêmio APCA de Literatura na Categoria Contos/Crônicas.

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