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Uma conversa sobre "Falconeira", arte de capa de "Os tais caquinhos"

Falconeira, de Julia Debasse, 2013, acrílica sobre linho, 140 x 78 cm.  Reprodução de Rafael Salim. Acervo Galeria Portas Vilaseca, Rio de Janeiro.

 

Você sabia que a capa do livro Os tais caquinhos traz a obra de uma artista carioca, que vive em Fortaleza, e é antiga amiga de Natércia Pontes? Conversamos com Julia Debasse, que é também tradutora e compositora, sobre a pintura Falconeira. Abaixo, você confere a entrevista na íntegra:

 

Como surgiu a ideia da obra Falconeira ilustrar a capa de Os tais caquinhos?

A obra foi uma escolha da Natércia. Eu estava pensando em fazer uma ilustração específica para o livro, que eu li antes mesmo de ser editado. Eu queria fazer uma pintura do mar sob o céu e no mar, um tênis à deriva. A Natércia gostou da ideia, mas fuxicando o meu portfólio, encontrou a Falconeira que imediatamente a remeteu a uma imagem de um gafanhoto que surge de maneira meio inesperada no livro. Aquela mulher com o capuz de falcão realmente lembrava uma cabeça de inseto com os olhos enormes.

 

Como a sua relação com Fortaleza se insere em seus trabalhos?

Fortaleza aparece no meu trabalho através do mar. Ultimamente tenho feito pinturas que exploram um mundo que é simultaneamente sertão e mar e certamente estes trabalhos só poderiam ter nascido no Ceará, que eu enxergo através destes contrastes. A Nat gosta muito de praia, mas eu sou mais das serras. Ela nasceu no dia de Iemanjá. Eu tenho muito medo do mar.

 

Há algo que você gostaria de destacar nessa obra específica, que poderia instigar os leitores a conhecerem o livro?

Uma curiosidade sobre a obra é que ela na verdade é um díptico. Embaixo desta pintura, que foi usada integralmente é magistralmente na capa, existe uma pintura da mesma largura, mas muito menor em sua altura - é uma legenda para a imagem. Lá se lê, escrito em dourado contra o fundo vinho: ‘Só descubra os olhos dela para a presa certa’. A Falconeira é um autorretrato que fiz quando tinha acabado de me casar e ser mãe e estava em um processo de me redescobrir e reinventar. Acho que nessa intenção a pintura também conversa muito com o romance de formação da Natércia.

 

Obra completa.

 

De um ponto de vista meu, estritamente pessoal e irrelevante para os outros, é muito emocionante me ver na capa deste livro. Através das formações e deformações que atravessamos nos últimos anos, coisas foram jogadas fora, amizades foram abandonadas, cidades foram deixadas para trás, mas a Natércia e eu nunca nos desligamos. Eu convido todos a lerem este romance forte, estranho e engraçado. Que tentem achar as conexões entre essa imagem e as agruras e glórias da Abigail, Berta e Lúcio.

 

***

 

Julia Debasse é artista, tradutora e compositora. Vive e trabalha em Fortaleza, no Ceará. Em seus trabalhos, Julia explora narrativas que combinam referências à "baixa" e à "alta cultura”. Por meio da pintura e do desenho, busca eliminar os espaços supostamente existentes entre essas esferas.

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