Uma fala de Sueli Carneiro

Neste 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, compartilhamos aqui a fala de Sueli Carneiro durante a mesa Feminismos Negros do Na Janela: Jornadas Antirracistas, evento promovido pela Companhia das Letras. A conversa, que contou também com a participação de Djamila Ribeiro, autora dos livros Pequeno manual antirracista e Quem tem medo do feminismo negro, Bianca Santana, que atualmente escreve a biografia de Sueli a ser publicada pela editora, e mediação da jornalista Flavia Oliveira, homenageou os 70 anos da filósofa e ativista e falou sobre o papel central do feminismo negro na luta antirracista.

 

 

Militantes não costumam ser festejados, ao contrário, costumam ser perseguidos, criminalizados, desqualificados. Aprendemos a lutar e nem sempre preservamos a ternura, aprendemos a nos defender e atacar. Conforto total pra gente de Ogun, como eu. Nossa praia!

Já homenagens, carinhos e afagos nos deixam completamente desarmadas, desarmados. Afinal, como dizia o poeta Arnaldo Xavier, “carinho de jumentos são os coices”...

E aqui estou eu toda sem jeito tendo de admitir que se eu soubesse que fazer 70 anos poderia ser tão bom, eu já teria feito muito antes e que gostei tanto que vou querer fazer de novo, muitas vezes.

Essa é a novidade trazida por esses novos tempos e essas novas militâncias que ascendem na cena política do movimento social negro, em que o cuidado, o reconhecimento e o afago parecem constitutivos de uma nova sociabilidade que vai se instituindo alcançando, inclusive, a velha geração. Nunca antes nós, as mais velhas e mais velhos, fomos tão mimados como agora. Obrigada Flávia Oliveira, obrigada Djamila Ribeiro, obrigada Bianca Santana, obrigada Companhia das Letras, por me honrarem com tamanho reconhecimento.

Nossos passos vêm de longe e também vem de longe a indignação que nos impulsiona, como bem mostra esse contundente poema de Fernanda Bastos:

 

Aluga-se uma preta
para ama
com muito bom leite, de 40 dias
e de primeiro parto,
é muito carinhosa,
não tem vício algum
e é muito sadia

Aluga-se uma preta
para ama
e também se vende a cria.

Aluga-se uma preta
de braços fortes e
de abundante leite
seja cativa ou liberta
trabalhadora de noite e dia

Aluga-se uma preta
sem filho e que saiba cuidar de menina
enquanto cuida de sinhá
á roda os senhores levam toda sua cria

Aluga-se preta
ama-seca muito jeitosa
o leite estancou no peito
assim como os afetos que nos cuidados ela nutria

Não aluga-se uma preta
caiu fraca, sem leite
sífilis e tuberculose ela tinha

Cobra-se o ordenado da preta
mais humilhação, violência e vilania
O senhor enganado era quem exigia.”

 

Esta homenagem que recebo hoje com orgulho e humildade significa para mim mais um momento de afirmação e reconhecimento da legitimidade dessa causa, dessa luta e desse lugar de fala que Djamila Ribeiro tão bem demarcou no âmbito do feminismo negro contemporâneo. É o reconhecimento desses discursos e atos que protagonizamos, produzidos por lágrimas insubmissas, é o reconhecimento dessa escrevivência “que não é para adormecer os da casa grande, e sim, para incomodá-los em seus sonhos injustos” como apontou nossa magistral Conceição Evaristo.

O que nos move a denunciar, o que nos move a lutar, a escrever, é a indignação diante da injustiça e da opressão, são as vivências cruéis que pessoas negras experimentam nessa sociedade e contra as quais tem que estar sempre alerta, em legítima defesa. E é essa indignação que reafirma a nossa humanidade e é esse o combustível da nossa resistência.

A nossa escrevivência insurgente clama por um novo pacto racial e de gênero que desaloje todas as hierarquias produzidas pelo racismo e pelo sexismo.

Esses sonhos libertários conformam uma nova estética social fundada noutra ética em que a diversidade humana se constitua no mais belo espetáculo da natureza a ser preservado.

Essa missão civilizatória é talvez o ponto mais importante da agenda que nos impulsiona.

Dias atrás eu vi um rapaz do coletivo Legítima Defesa lendo o trecho final de um dos meus artigos que seguem ainda sendo a utopia que eu persigo.

Lembro neste artigo o poeta Aimé Césaire, que disse que há duas maneiras de se perder: uma por segregação na particularidade; ou por diluição na universalidade.

Para nós, negras, a utopia que hoje perseguimos consiste em buscar e afirmar um lugar entre uma negritude redutora da dimensão humana e uma universalidade ocidental hegemônica que anula ou rejeita a diversidade.

Ser negro sem ser somente negro, ser mulher sem ser somente mulher, ser mulher negra sem ser somente mulher negra, tornar-se um ser humano pleno de possibilidades e oportunidades para além da condição de raça, de gênero ou de orientação sexual. Esse é o sentido final de nossas lutas.

O alcance dessa utopia depende da criação do ambiente democrático em que novos projetos de Brasil possam ser disputados. Por isso a prioridade política desse momento é conter a escalada do neo-fascismo no Brasil. E o único antídoto a isso é a defesa intransigente da democracia.

Mas, se o racismo é elemento estrutural da sociedade brasileira ele é, portanto, um dos pilares fundamentais da democracia de baixa intensidade, como diz Boaventura Sousa Santos, a que nos acostumamos como normalidade democrática, e cujo ônus quem paga somos nós, negras e negros brasileiros. E é esse normal que precisa ser desafiado e abandonado. Por isso, o avanço da consciência negra e as evidências inquestionáveis das iniquidades produzidas pelo racismo no Brasil exige, em tempos de renegociação do pacto democrático, o reconhecimento de que com racismo não haverá democracia no Brasil, como afirma o documento da Coalizão Negra por Direitos. Essa assertiva impõe-se como imperativo ético regulador do novo normal a ser perseguido, que seja capaz de engendrar um novo projeto de nação em que uma verdadeira democracia racial enfim seja realmente possível.

 

*** 

Sueli Carneiro é doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e fundadora do Geledés – Instituto da Mulher Negra – primeira organização negra e feminista independente de São Paulo. Teórica da questão da mulher negra, criou o único programa brasileiro de orientação na área de saúde física e mental específico para mulheres negras, onde mais de trinta mulheres são atendidas semanalmente por psicólogos e assistentes sociais. Em 1988 foi convidada a integrar o Conselho Nacional da Condição Feminina, em Brasília. Criou,  em 1992 um plano específico para a juventude negra, o Projeto Rappers, onde os jovens são agentes de denúncia e também multiplicadores da consciência de cidadania dos demais jovens. A filósofa também é autora da obra Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil que traz uma abordagem crítica dos comportamentos humanos e apresenta os principais avanços na superação das desigualdades criadas pela prática da discriminação racial.

 

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