Vem aí a recessão ambiental

Claudio Angelo

Um dos problemas de ter um bando de sociopatas ocupando o poder é que não dá para esperar que eles se comportem de nenhuma outra forma que não como um bando de sociopatas. Mesmo que isso implique em destruir a economia do país, agora e no longo prazo.

O sociopata-em-chefe do Brasil passou tanto tempo atacando as medidas de isolamento social na pandemia em nome da economia que teve sucesso: parte da sociedade ignorou a quarentena e prefeitos e governadores iniciaram reaberturas precoces que resultaram, adivinhe, numa aceleração no número de casos. Esta tem obrigado a recuos, fechamentos e mini-lockdowns, à medida que os sistemas hospitalares colapsam Brasil adentro. Enquanto o mundo vira a página da Covid e prepara a retomada, o patropi, em nome da economia, arrasa famílias e a própria economia.

Mas isso é só no primeiro momento. Porque as coisas tendem a ficar muito, muito piores. Arma-se no horizonte uma tempestade perfeita para o Brasil e o país pode ter uma recuperação mais lenta e menos duradoura do que a de outros países do G20. E perder mais uma oportunidade de ganhar dinheiro e desenvolver setores estratégicos.

A queda no PIB causada pela pandemia exigirá uma intensificação do comércio internacional e dos investimentos. Seria, por exemplo, um bom momento para avançar no longo processo de ratificação do acordo comercial UE-Mercosul e para atrair capital estrangeiro com um mercado de 200 milhões de consumidores.

Ocorre que o Brasil está virando um destino tóxico para o capital estrangeiro, por uma série de razões que vão dos ataques à democracia à política ambiental. Esta, candidamente resumida naquela frase lapidar “vamos aproveitar que a imprensa está distraída com a pandemia para passar a boiada”, começa a cobrar seu preço. A chance de avanços no acordo de livre-comércio com a Europa neste momento é nula; os europeus estão aproveitando que o processo doméstico de ratificação é mesmo demorado para catimbar até que os ventos (ou o governo) mudem por aqui. E, no último dia 22, 30 investidores estrangeiros, com ativos somados de US$ 4,1 trilhões (duas vezes e meia o PIB brasileiro), chamaram embaixadores do Brasil em oito países para uma “conversinha” sobre essa história de boiada. Eles dizem que o tratamento dado à floresta e ao clima pelo Brasil está expondo seus investidos a riscos diversos. Em bom português, eles temem perder dinheiro. A conversa com embaixadores é o último passo antes do desinvestimento. Não existe momento bom para perder investidores, mas uma recessão é o pior de todos eles.

O governo não sabe como reagir à repercussão externa da crise ambiental. Não possui ferramentas cognitivas para isso. O Presidente da República pensa (desculpem o verbo forte) que a Amazônia é um reservatório de terras e minérios e que tudo que está no caminho da apropriação desses bens (a floresta, seus povos, as ONGs, os cientistas) precisa ser eliminado. Nessa moldura mental, qualquer tentativa de controlar ou evitar a destruição da floresta nasce condenada. Sociopatia, como sabemos, não tem cura.

As pessoas ditas “razoáveis” da administração, como o vice-presidente (aquele que escreveu que botaria os tanques na rua se a imprensa não começasse a elogiar o governo) e a ministra da Agricultura (aquela que mandou liberar o plantio de cana na Amazônia sem nenhuma necessidade econômica e contra todas as recomendações técnicas), acham que o desmatamento é um problema de comunicação e com o spin certo o mundo vai se convencer de que o Brasil é sustentável. Vocês contam ou eu conto?

O outro problema de fundo é que a atual administração ignora olimpicamente o elefante na sala, para o qual as atenções de muita gente tendem a se voltar nos planos econômicos pós-pandemia: a mudança do clima. Esta é a segunda grande célula de instabilidade que se junta com a crise do desmatamento para atrapalhar as chances de recuperação do Brasil.

A Covid zera o jogo econômico e abre à humanidade uma janela concreta para atacar a crise climática, que nunca foi embora mesmo enquanto as pessoas estavam em casa. Novas indústrias, baseadas em tecnologia de energia limpa, que enfrentavam dificuldades políticas para competir com a economia fóssil, ganharam um espaço inédito para equilibrar o jogo. E pelo menos um aliado de peso: a União Europeia.

Os europeus apresentaram o Green Deal, um plano de recuperação econômica verde para zerar emissões líquidas de carbono até 2050. Acostumados com regulação intensa, com um mercado de carbono funcionando há quase duas décadas e uma sociedade pós-industrial que pressiona pelo desinvestimento em combustíveis fósseis, os países europeus devem acelerar a descarbonização da economia e tendem a pressionar seus parceiros comerciais por produtos menos intensivos em carbono.

Esse movimento pode ganhar intensidade em novembro caso os democratas sejam eleitos nos Estados Unidos – cenário cada vez menos improvável diante da condução desastrosa da pandemia por Donald Trump. Joe Biden tende a retomar os incentivos à energia limpa de onde Barack Obama os deixou ao encerrar o governo, em 2016. E traz na bagagem a companheira de partido Alexandria Ocasio-Cortez, proponente do Green New Deal, o conjunto de reformas econômicas verdes que inspirou o pacote europeu.

O Brasil tem grande parte dos elementos necessários para virar um competidor nessa nova economia. Tem muita terra para reflorestamento. Tem o maior programa de agricultura de baixa emissão de carbono do mundo tropical. Tem uma indústria de bioplásticos estabelecida. Tem uma pós-graduação pronta para fornecer inovação às novas indústrias. E tem o que nenhum outro país do mundo tem na mesma extensão – a Amazônia.

Mas tem também um gabinete de negacionistas da mudança do clima, uma política externa conduzida por alguém que fez por merecer a alcunha de “o pior diplomata do mundo” e uma elite empresarial preocupada com “morte de CNPJ” e que pede mais proteção do governo após a pandemia.

No timão da economia, o fiador do regime fala em sair da crise da Covid dobrando a aposta na fórmula econômica que nos deu o “pibinho” de 2019 (alguém se lembra dele?): arrocho, privatizações, desmonte do Estado. Essa singular mente transplantada dos anos 1980 diretamente para 2020 parece embalada por um pensamento mágico segundo o qual repetir estratégias que já deram errado no passado pode fazer com que deem certo no futuro. A ânsia de um “quick fix” deve trazer junto mais desregulação, mais avanço sobre o mercado de terras, mais facilidades para o agronegócio e o setor extrativo mineral, um golpe no licenciamento ambiental para “acelerar” a infraestrutura e mimos para o bichinho de estimação de todos os governos brasileiros desde Vargas: o setor de óleo e gás. Essa agenda não terá oposição do Congresso, que reza pelo mesmo catecismo. Vai lá perguntar no posto Ipiranga o que ele acha do Green Deal.

A combinação desgraçada de crise sanitária, crise climática e sociopatia está contratando para o Brasil sua primeira recessão ambiental. Mais uma vez, o país deixa escapar uma tremenda oportunidade de inserção internacional e de geração de prosperidade dentro de casa. A eleição americana pode catalisar ou atenuar esse problema, mas ele virá. E, para os que acham que a China vai nos salvar, sempre tem aquele meme do Cebolinha guardado em alguma gaveta em Pequim para ser usado no momento certo.

 

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Claudio Angelo nasceu em Salvador, em 1975. Foi editor de ciência do jornal Folha de S.Paulo de 2004 a 2010 e colaborou em publicações como NatureScientific American e Época. Foi bolsista Knight de jornalismo científico no MIT, nos Estados Unidos. Lançou, em 2016, pela Companhia das Letras o livro A espiral da morte, sobre os efeitos do aquecimento global, ganhador do Prêmio Jabuti na categoria Ciências da Natureza, Meio Ambiente e Matemática.

 

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