Vertigo, um ponto de vista

Érico Assis

A história completa ainda precisa ser contada pelos envolvidos, mas o que se ouve é que, em 1995 ou 1996, a revista Vertigo chegou nas mãos do alto escalão da Editora Abril e que o alto escalão, ao descobrir que seu baixo escalão publicava essa revista chamada Vertigo, com HQ americana que não era nem infantil nem de super-herói, mandou encerrar tudo.

A Vertigo era publicada pela Abril Jovem, a divisão que fazia os quadrinhos da Abril – na época, praticamente monopólio de HQ no país. Na capa, a Vertigo dizia “quadrinhos de alto nível” e “recomendável para adultos”. Dentro, John Constantine fazia pacto com três demônios para não morrer de câncer, o Máscara do Mistério procura um assassino que tortura e mata mulheres. A Vertigo saía em um formato quase duas vezes maior que os outros gibis da Abril, tinha papel acetinado e lombadas quadradas. Custava mais que o dobro dos outros gibis. A violência era explícita, os personagens falavam “merda” e tinha um pouquinho de nudez, três coisas que não se via nos outros gibis.

Quadrinho de adulto não era novidade na época, nem para a própria Abril. Ninguém sabe o que escandalizou o alto escalão, mas a Vertigo não passou do primeiro ano porque alguém bateu o pé que a Abril não devia publicar aquele tipo de quadrinho.

 

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Karen Berger entrou de editora-assistente na DC Comics no final dos anos 1970. Na edição em que assumiu a editoria de House of Mystery, ela é desenhada carregando pranchas de arte e cookies, como boa assistente que é. Tinha 23 anos. A DC sempre fora conhecida como uma das editoras mais conservadoras dos EUA, mas vinha mudando, bem devagar, desde que ganhara uma publisher mulher, Jenette Kahn, depois de 40 anos de engravatados.

Só que bem devagar. Kahn conseguiu implementar um de seus planos, aproximar os quadrinhos das livrarias, depois de dez anos no cargo. Para chegar nas livrarias, os quadrinhos precisavam ter pelo menos cara de adultos. Berger foi a editora fundamental para fazer quadrinhos com cara de adultos: saiu atrás de escritores que liam mais que gibi, artistas que fossem mais ligados nas galerias do que nos veteranos do nanquim, contratou capas pintadas que não gritavam com o leitor em splash e balão. E se livrou daquele selinho “approved by the comics code”, marca maior de infantilidade.

E Berger descobriu Neil Gaiman. Sim, muita gente pode dizer que descobriu Neil Gaiman antes de ele ser o Neil Gaiman, e o próprio Neil Gaiman correu bastante para virar o Neil Gaiman. Mas Berger encontrou na Inglaterra um jornalista free-lancer de vinte e poucos anos e disse para ele reinventar um personagem antigo da DC. Gaiman apareceu com Sandman e cinco anos depois a DC lançou um selo de quadrinhos em torno de Sandman. Era a Vertigo.

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Sandman vendia bem, ainda vende bem e vai vender ainda mais. E é uma ótima HQ, apesar de, convenhamos, ter desfilado um monte de desenhistas fracos. Mas Sandman, pelo menos na sua versão original, acabou pouco depois de a Vertigo começar. Desde a fundação, em 1993, a promessa da Vertigo era fazer mais sucessos tipo Sandman.

Ninguém sabe dizer bem o que é Sandman ou por que vendia. Sandman era fantasia, então a Vertigo apostou em fantasia. Mas fantasia dark, para adultos lerem sobre elfos. Sandman era terror, então a Vertigo apostou em terror. Mas terror violento, ousado, serial killer dançando com tripas. Sandman referenciava arte contemporânea e citava Shakespeare e tinha personagens LGBTQ e arrotava metalinguagem, então a Vertigo apostou em tudo que era subcultura (BDSM, modificação corporal, teorias da conspiração) before it was cool e contratou qualquer escritor que soubesse fazer histórias sobre histórias que falavam de histórias – e citassem Shakespeare.

Quando o selinho na capa já tinha algum significado, a Vertigo tentou se abrir para o pop sensacionalista (Preacher e suas piadas com cu), para o policial (100 Balas, Escalpo), a ficção científica ("o último homem na Terra"), vampiros, ficção histórica, high concept hollywoodiano. Era ficção de gênero, mas o selinho na capa garantia que era ficção de gênero à moda Vertigo e isso fazia alguma diferença.

Muitas coisas da Vertigo deram muito errado. Outras, dependendo do seu gosto, são até melhores que Sandman – mas nunca foram o sucesso crítico e comercial de Sandman. No meio desses 25 anos houve uma mudança fundamental no selo: os contratos não deixariam os autores ser tão donos do que criavam quanto Neil Gaiman era dono de Sandman. Foi o que desmotivou muita gente a trabalhar com a Vertigo – inclusive a própria Karen Berger, que largou o barco.

Neil Gaiman, por sua vez, ficou muito caro para inventar mais uma coisa tipo Sandman para a Vertigo. Ou não quis se arriscar a criar mais uma coisa tipo Sandman.

 

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A DC matou a Vertigo em junho. O selo segue aparecendo em algumas revistas até o final deste ano e, a partir de 2020, não existe mais. Comentou-se bastante que, nos últimos tempos, a Vertigo tinha bem mais erros do que acertos. Na verdade, foram 25 anos de mais erros do que acertos. E é por isso que a Vertigo vai fazer falta.

A justificativa da DC para o encerramento é que o quadrinho adulto, sofisticado e ousado já faz parte de toda sua linha e que não devia ficar restrito a um selo só. O que é mentira. O mais ousado a que a DC consegue chegar é nu frontal do Batman – que depois esconde, assustada.

A Vertigo nunca teve esse medo. Fez muita porcaria por ser destemida, mas era para isso que servia: para experimentar. Ser um laboratório de cientista louco no meio de uma empresa engravatada – e cada vez mais engravatada conforme foi mudando de dono e tendo que se justificar para cada dono. (A DC Comics é divisão da DC Entertainment, que é subsidiária da Warner Bros., que faz parte da WarnerMedia, comprada no ano passado pela AT&T.) Por mais que existam por aí quadrinhos de experimentos mais loucos, com mais referências a mais subculturas e mais citações de Shakespeare, eles não estavam dentro de uma grande empresa com grana de promoção e distribuição como a DC. Esta é a perda com a Vertigo.

O encerramento provavelmente não teve nada a ver com a história da Vertigo da Abril. Provavelmente teve a ver com números. Tem outra possibilidade, que é a inversão do que motivou o nascimento da linha: Sandman vai virar série da Netflix, vai vender ainda mais, e a DC quer mostrar para o alto escalão que Sandman é uma série dela, DC, e não dessa tal Vertigo. Ou seja: morreu porque o alto escalão mandou ou porque alguém queria se exibir para o alto escalão.

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No final de Sandman, durante o velório de Morpheus, há um diálogo entre os personagens:

- Ninguém morreu. Como se pode matar uma ideia?

- Então o que morreu? Quem estamos velando?

- Um ponto de vista.

                                                                                                                                                             ***

Érico Assis é tradutor e jornalista. Mora em Pelotas e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Foi editor convidado de O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 (editora Narval). Traduziu para a Quadrinhos na Cia., entre outros, Garota-Ranho Minha coisa favorita é monstrohttp://ericoassis.com.br/

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