Viagem em busca de Ana C. -- 1º dia

Por Mariana Mendes

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"Viagem em busca de Ana C." é um diário de bordo escrito durante quatro dias para um trabalho de pesquisa da disciplina de ensaio do curso de pós-graduação do Instituto de Ensino Superior do Vera Cruz, comandado pela escritora Noemi Jaffe. No dia em que Ana Cristina Cesar completaria 64 anos, publicamos aqui no blog a primeira parte deste diário. As outras três partes serão publicadas nas semanas seguintes, que marcam o lançamento de A teus péslivro originalmente publicado em 1982, e Crítica e tradução, que reúne os ensaios de Ana C.

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1º dia, quinta-feira

Amanheci no Rio. Saí de São Paulo ontem, de ônibus leito, perto da meia-noite. Vim fazer uma pesquisa. Cheguei e foi como se estivesse contando com o momento certo de cair. Desci do ônibus, sentei à espera de algo, não sabia o quê. Era a queda. Fiquei ao lado do guichê de informações. Só criei coragem uns quinze minutos depois. Vou pra rua Toneleros, em Copacabana, número 171. Fui orientada a pegar o circular, “é sair e seguir à direita, logo ali”. Me estatelei já fora da rodoviária. Foi feio, basicamente machuquei o joelho, mas não me abalei. Ralei a palma da mão direita, examinei se me impediria de escrever ou digitar, mas não, foi só raspão em terreno árido, irregular, cheio de pedrinhas. Perrengue, Ana.

Ônibus circular para a Gávea, destino: Instituto Moreira Salles (IMS). Lá toquei seus papéis pela primeira vez. Sensação de estar diante de parte importante de seu corpo. O papel como matéria, a escrita como continuidade. Passei o dia olhando para tudo o que eu não entendia que era você e ao mesmo tempo eu sabia que era. Vim em busca de seus diários. Me animei a ter você (e seus escritos em forma de diário) como objeto de um trabalho de conclusão de disciplina da pós. Quando ainda estava em São Paulo, imaginei um caminho para o texto. O título e o primeiro parágrafo estavam prontos:

Ana Cristina Cesar, minha mãe e eu

Sou (1974) formada em letras assim como minha mãe (1949) e Ana Cristina Cesar (1952). Nós duas estudamos em São Paulo, na USP; ela no Rio, PUC-Rio. Ana foi professora, tradutora e escritora; minha mãe é professora, tradutora e escritora; e eu trabalho como editora na Companhia das Letras, mas penso que nasci para escrever.”

Note que eu já partia de uma premissa pessoal, particular. Depois do primeiro parágrafo viria uma conversa que tive com a minha mãe, que seria introduzida assim:

“Quando está em Florianópolis (SC), minha mãe mora numa casa que ela planejou e construiu em cima do morro de Sambaqui. O diálogo ocorreu lá, entre os livros dela.”

Eu gostava do texto, tinha uma pegada. Mas mudei radicalmente, escolhi outro sentido e vou seguir por aí. Lembra do seu Master of Arts, em Essex, na Inglaterra? Você viveu algo parecido, guardadas as proporções, claro. Você diz assim na introdução:

Pretendia escrever um ensaio geral sobre a tradução para o português do conto Bliss, de Katherine Mansfield, complementando-o com notas de pé de página, que abarcariam problemas específicos. Mas o processo se subverteu espontaneamente (ou se inverteu) e logo ficou evidente que as notas haviam absorvido toda a substância primordial do ensaio ‘a respeito da tradução’.

Ao ler seus diários, Ana, pensei nos meus. Tenho vários cadernos, guardados desde a época de escola, quando eu tinha uns dezesseis, dezessete anos. Faz um tempo que trabalho nesse material, quero transformar em arquivo eletrônico. É um bom exercício – ler, rever e transcrever da letra à mão para o computador. Nada do que escrevi neles se aproxima do que li nos teus, Ana, e fiquei pensando. Encontrei um ensaio de Maurice Blanchot, “O diário íntimo e a narrativa”. Os meus diários fazem eco à discussão dele sobre o gênero. Reconheço o que escrevo com, por exemplo, esse comentário:

O pacto que o diário assina é com o calendário. Escrever um diário íntimo é colocar-se momentaneamente sob a proteção dos dias comuns, colocar a escrita sob essa proteção, e é também proteger-se da escrita, submetendo-a a regularidade feliz que nos comprometemos a não ameaçar.

Ele continua, é um texto curto, mas muito bom e esclarecedor. Quando resolvi analisar seus diários sob essa ótica, percebi que eles não se encaixavam. Você faz da escrita do diário outra coisa, subverte o Blanchot, ele argumenta do ponto de vista teórico, crítico e formal. Não tem nada de errado no que ele escreve, pelo contrário, a maioria dos diários deve corresponder ao que ele diz, mas não os seus. Foi isso que me trouxe ao Rio.

Em Cenas de abril aparecem as primeiras inserções que simulam um diário formal. A escrita se caracteriza pela informalidade, mas parece cifrada. Dá ao leitor a impressão de que, sem conhecer minimamente sua biografia, o acesso a seu universo literário ficará intransponível. Mas logo na segunda entrada, ao lado da primeira, essa ideia se desfaz. Você faz o que quer dele (e com ele), você o transmuta e se utiliza dele esteticamente. É como te enxergo por trás da sua fala irônica afirmando o poder do diário sobre você, como se fosse um imperativo. Copio as duas entradas pra você se lembrar da brincadeira.

16 de junho

Posso ouvir minha voz feminina: estou cansada de ser homem. Ângela nega pelos olhos: a woman left lonely. Finda-se o dia. Vinde meninos, vinde a Jesus. A Bíblia e o Hinário no colinho. Meia branca. Órgão que papai tocava. A bênção final amém. Reviradíssima no beliche de solteiro. Mamãe veio cheirar e percebeu tudo. Mãe vê dentro dos olhos do coração mas estou cansada de ser homem. Ângela me dá trancos com os olhos pintados de lilás ou da outra cor sinistra da caixinha. Os peitos andam empedrados. Disfunções. Frio nos pés. Eu sou o caminho a verdade a vida. Lâmpada para meus pés é a tua palavra. E luz para o meu caminho. Posso ouvir a voz. Amém, mamãe.

18 de fevereiro

Me exercitei muito em escritos burocráticos, cartas de recomendação, anteprojetos, consultas. O irremovível trabalho da redação técnica. Somente a dicção nobre poderia a tais alturas consolar-me. Mas não o ritmo seco dos diários que me exigem!

Como leitora me senti provocada. O passo seguinte foi aceitar a provocação e ir atrás, ler mais, me aprofundar, me retirar de um estado anterior de conhecimento sobre você, sobre sua obra, para poder fazer a passagem. Procurei me deslocar, deixar para trás o que já tinha e ir ao teu encontro. A teus pés.

Leio algo dissimulado em seus diários, você tripudia em cima do gênero, é uma brincadeira feliz. Seu diário é máscara, fingimento, vale muito mais como ficção do que como diário. Você se forja em matéria literária. Assim te escolhi. Quero ser escritora, quero aprender o que você puder me ensinar.

Não é vontade de dissecar, ou simplesmente de entender o modo como você subverte a escrita cotidiana, superficial e a transforma em acaso, quer dizer, literatura. O ponto de partida é a vida, material biográfico, mas desde que ele possa ser fundido. É como penso que você pensava.

Encerro por aqui, Ana, esse nosso primeiro dia. Vou jantar na casa do Armando logo mais. Do Armando e da Cristina, a mulher dele. Você conhece ela, mas acho que eles ainda não eram casados. Não importa. Estou indo lá, adivinha pra quê? De novo estou pensando em te buscar. Te colar em mim.

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Mariana Mendes é formada em Letras e trabalha no departamento de educação da Companhia das Letras desde 1998.

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