Vida adulta

Djaimilia Pereira de Almeida

Por Djaimilia Pereira de Almeida

Foto: Lesly Juarez / Unsplash

Uma das partes mais difíceis e bonitas de ser adulta é viver sem rede. Todos os dias são uma surpresa, o que é uma alegria da vida independente. Já é claro que nunca perceberei o que é uma sonata e que a maioria dos caminhos se fecharam. Mas custa não ter um guia, alguém que me diga o que fazer. Custa não fazer ideia, tantas vezes, do caminho que devo seguir, o que devo desejar ou a maneira certa de proceder.

Não estou sozinha no mundo, mas chegamos ao ponto em que estamos por nossa conta. O deus que explica aquilo que nos tornamos não nos deixa fechar os olhos. É um vento e nós uma folha que ele sopra, ainda que custe a acreditar vendo-nos atarefados com assuntos de adultos, mundanos, cheios de manias inconfessáveis, senhores das nossas intransigências, míopes, línguas-afiadas, leitores inclementes um do outro, inquilinos cumpridores, comedores pontuais de torradas burguesas, pagadores de faturas em atraso. Já vivemos até o ponto de perceber que não ter certezas sobre a vida nunca impediu ninguém de acumular vitórias, derrotas, doenças.

Às vezes, em desespero, antes de adormecer, lembro-me de Deus. E aí peço em oração que durante a noite a solução dos problemas me apareça e eu perceba em sonhos o que devo fazer quando acordar.

Acho que não sou atendida. Passo a noite a sonhar que subo escadarias íngremes ou que voo contra altas árvores de ramos negros; ou que dou à luz crianças do tamanho de alfinetes. Às vezes, nesses voos heróicos, levo as pessoas que amo pelo braço. Chego a salvar a cidade de um ataque terrorista. De dia sou hesitante, dubitativa. De noite, uma super-mulher zelosa. Mas acordo baralhada. Que quererá o sonho dizer-me sobre o passo seguinte, a decisão a tomar, o impasse, a resposta que tardo em encontrar?

Foto: Nine Köpfer / Unsplash

É uma das partes mais difíceis e bonitas de ser adulta, até agora: ter de prosseguir sem mestres, sem certezas e sem guias. Ninguém me dizer o que devo responder, de quem me devo afastar ou aproximar. Não ter quem me diga quem devo amar nem qual o melhor corte de cabelo, nem em que partido votar. Não adianta sequer acreditar em Deus, pois Ele conta que eu entenda tudo sozinha e não me facilita a vida. Desorientada, às vezes penso que ser adulta é deixar que Deus jogue à cabra-cega comigo. A maioria das vezes resigno-me. Entrego-me aos meus amores, à minha casa, uma, duas, três caras amigas; aos sembas*, sambas e sonatas que me vão salvando a vida. Mas logo esconder-me atrás dessa muralha acolhedora me parece cobardia e percebo que tenho de molhar os pés na água, dançar mesmo sem saber nada.

O que me aflige e contenta depois de crescida não é nada do que imaginei que me viesse a afligir. Não é escolher a profissão, a casa, o marido, se quero ou não ter filhos, ou onde quero viver. Mas não ter quem me diga o que devo pensar, como devo agir; quase nunca poder ter a certeza de que fiz a escolha certa; é estar entregue a mim mesma sem ter tido tempo para decorar a minha deixa na vida, aquela a que devo reagir sem pestanejar ensaiando a minha fala sem hesitações.

O que me aflige e alegra na vida adulta é não poder controlar completamente a mulher que todos os dias me vou tornando e ser em simultâneo a única pessoa que pode responder por ela.

Não sei se amanhã estarei viva nem como ser a melhor pessoa que posso ser, mesmo que seja eu quem responda pelos meus actos. Não sei se quero ter filhos, se devo vender o meu tempo, se serei capaz de escrever para sempre. Não sei se devia ter dito “talvez”, ou mandado saudades, ou aparecido na inauguração, ou calçado as botas vermelhas. Não sei sequer se confessar tantas dúvidas não será apenas falta de educação. Ser adulta também sou eu sozinha com a minha cara ao espelho, obrigada a habituar-me ao fato de que ela é todos os dias a mesma, a de alguém quase sem certezas.

Se a infância ficou para trás, a vida adulta é uma vida sem rede e sem sonhos proféticos. É o que mais me aflige e alegra hoje, quando já ninguém me chama ‘miúda’ e eu continuo a lembrar-me tão bem do que era ser criança. Agora que passou a parecer mal estar sempre a lembrar a menina que fui e evocá-la se tornou um subterfúgio com o qual já não engano ninguém.

*Semba da Benção e da Consolação, Paulo Flores

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Djaimilia Pereira de Almeida nasceu em 1982. É autora de Esse cabelo (2015) e de Ajudar a cair (2017). Vive em Lisboa.

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